Nesta seção você poderá ver alguns ensaios meus sobre temas variados, que trazem um pouco da minha experiência e da minha visão de mundo.
 
 

Elis Regina e os jovens

 


O evento de lançamento do Projeto Boulevard des Capucines, foi realizado na Livraria Sobrado em São Paulo em 18/05/07, e reuniu uma platéia bastante diversificada, composta por executivos, intelectuais, professores universitários, músicos, amigos, parentes, fãs de Elis Regina, e adolescentes. Com o objetivo de melhorar o meu trabalho, ao final pedi aos participantes que emitissem o seu conceito sobre o projeto.

Especialmente, pedi a um amigo meu de toda uma vida que fizesse o papel de "advogado do diabo" sobre o projeto. Advogado brilhante, muito culto, meu amigo é extremamente crítico, e por ser amigo de muitos anos, não tem "papas na língua" e é bastante duro nas suas avaliações. Achei que seria bastante produtivo ter o meu trabalho criticado por ele, particularmente por estar "oficializando" o fato de Elis Regina ser referencia de vida para muitas pessoas, em especial jovens adolescentes!

Meu amigo, então, começou o seu questionamento. Olha só Zé - disse ele em tom desafiador - o projeto é muito bom e você é cheio de boas intenções. Mas pensa bem! Em épocas tão confusas como a nossa, será que a Elis é uma referencia para os jovens? Porque, por exemplo, os mandamentos mosaicos (as tábuas da lei de Moisés: não matarás, não roubarás etc.) são referências antigas que atravessaram o tempo e foram absorvidas por muitas das principais religiões.

Baseado na história de Moisés - continuou ele - há quem possa deduzir que sem uma âncora moral e social, fatalmente a sociedade será atraída pela adoração festiva dos "bezerros de ouro" que se sucedem ao longo da história. Ou seja, Elis Regina como "bezerro de ouro" e todos os seus fãs e admiradores (já que para esses parece que Elis Regina é tão única, que tudo teria começado a partir dela...) a "adorando festivamente" (25 anos depois de morta...) como um caso de "histeria coletiva" digno de um psicanalista como Freud.

Fiquei surpreso com o conteúdo intelectual do questionamento do meu amigo, mas, mais que isso, com a sua "criatividade" em fazer uma comparação entre a história de Moisés, de âmbito absolutamente religioso (divino), com a obra de Elis Regina, para invalidá-la como referência (assim como outras almas iluminadas que passaram por este planeta). Além do mais, colocou a mim e às centenas de milhares de admiradores de Elis em uma posição ridícula, tanto moral como intelectual.

Fiquei tão surpreso que não sabia se dava risadas ou respondia seriamente o seu questionamento. Decidi responder seriamente, afinal, ele tinha sido colocado por mim nesta posição de "cabeça pensante" justamente para me criticar.

Bom - argumentei eu - antes de mais nada penso que o ponto que você levantou é válido. No entanto, penso também, que este é fundamentalmente um assunto do âmbito religioso, e, portanto, os líderes religiosos como, por exemplo, o papa Bento XVI, é que são preparados e levam essa mensagem aos jovens. Além do mais, não uso no projeto Boulevard des Capucines dogmas ou preceitos religiosos como referências. Trato o tema da espiritualidade fora do âmbito das religiões. O que pretendo com o projeto se soma à formação tradicional das pessoas.

A crônica baixa auto-estima do brasileiro requer uma referência brasileira ao alcance dos brasileiros comuns! Como sou músico, e a música foi fundamental para a minha formação como ser humano, é natural que eu acredite que através dela os jovens poderão ser positivamente influenciados, na busca de referenciais e formas de lidar positivamente com mudanças.

Penso que os tempos atuais não comportam "mandamentos", mas sim uma influência que toque o coração e a alma das pessoas, que as inspire, que as façam refletir e mudar, e não que as "comande" através da idéia de um Deus que castiga, como era no tempo de Moisés. E, estou seguro que a minha escolha foi acertada. Por exemplo, veja só este trecho de um depoimento de uma pessoa que participou da palestra de lançamento do projeto:

"... Já li alguns livros de auto-ajuda, e lá sempre tem exemplos de empresários americanos. Acho que estão muito distantes de nós e não consigo estabelecer uma ligação de identidade com os seus exemplos, apesar de reconhecer o valor. Você foi extremamente feliz na escolha do tema e na brasilidade das referências. A escolha de Elis Regina, para nos fazer compreender essa essência da brasilidade foi perfeita. Ela retrata a autoconfiança de ser ela mesma, assumida, sem auréolas de santo, brasileira, portanto acessível a nós. Saí da sua palestra com um sentimento de orgulho, e percebendo que existe uma identidade brasileira forte, capaz e querida no mundo. E é óbvio, gostando ainda mais da Elis Regina. Uma mente muito enlatada (risos...) talvez reaja com preconceito. Minha humilde sugestão é que você não se desanime em descobrir como tocar essas mentes também..."

Então, meu amigo, dizer que Moisés e a tábua dos mandamentos vieram séculos antes de Elis Regina e que ela não esta no "nível" da divindade e sim de "bezerro de ouro", parece não fazer muito sentido nos tempos atuais. O que realmente importa, é que além do seu talento inigualável, ela sempre quis o bem desinteressadamente, e o seu legado é a maior prova disso.

Ruim mesmo são os "bezerros de ouro" que tem interesses econômicos e políticos ou simplesmente são irresponsáveis e querem a fama (estes sim se encaixam perfeitamente neste conceito), e não estão nada preocupados em fazer o bem para a sociedade, ao contrário, usam-na para as suas finalidades interesseiras, sem nenhum compromisso com a verdade. Pior ainda, são aqueles que "seduzidos" pelo carisma destes "bezerros", se voltam para as drogas, votam neles ou os apóiam e os colocam em posição de comando público. Basta ver a situação do nosso país, e, mal comparando, até da região do planeta onde Moisés no Monte Sinai recebeu as tábuas da lei.

Meu amigo sorriu, parecendo estar satisfeito com minhas argumentações. Sorri de volta, mas lhe disse: tem uma coisa sobre referencias, principalmente para jovens, que tenho aprendido, com muito orgulho e responsabilidade, desde que publiquei o livro Boulevard des Capucines, e que acabou se desdobrando no projeto homônimo. Para você ter uma idéia do que isso significa, vou lhe mostrar alguns resultados práticos.


Música: Por um amor maior (Ruy Guerra/Francis Hime)

LEIA A CONTINUAÇÃO NO ENSAIO "OS JOVENS E A ESCOLHA DE REFERÊNCIAS".

 

 
 
     
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